A morte dos idioms: por que “to bring home the bacon” pode desaparecer?

“Não atirei o pau no gato-to, porque isso-so, não se faz-faz-faz. O gatinho-nho é nosso amigo-go. Não devemos maltratar os animais.” Conhece essa cantiga? Dependendo da sua idade, você talvez se familiarize mais com outra versão, que descreve maus-tratos a um felino e a admiração sórdida de uma senhora chamada Dona Chica ao ouvir seu berro de sofrimento. Não é difícil perceber porque adaptamos canções, marchinhas e outras velhas manifestações culturais como essa. Mas você já se perguntou o quanto a língua molda nossa forma de pensar? Bem, uma professora de linguística da Universidade da Califórnia pensou e  compartilhou seus estudos no TED Talks (psiu! Tem legenda em inglês sincronizadinha pra você treinar o seu inglês, viu? 😉

Mas eu quero ir além. Afinal, não são apenas palavras que carregam história e significado (tais como “denegrir”, que vem de negro, ou “judiar”, que vem de judeu), mas idioms também, como vocês já devem saber. E como eles nos influenciam, e vice-versa, é exatamente o ponto em que quero chegar.

Hold your horses!

Essa semana, uma notícia do Yahoo  (em inglês) me chamou a atenção. To bring home the bacon (que pode ser usado como sinônimo de ganhar a vida e sustentar a família, algo como “comprar o leite das crianças”, em português) foi apontada por especialistas como uma das expressões idiomáticas que deve desaparecer futuramente. To grab the bull by the horns (agarrar o touro pelos chifres, em tradução literal, usada com o sentido de encarar de frente uma situação difícil) também estava na lista. Por quê? Para evitar ofender os veganos, segundo manchete da matéria. Antes de você, carnívoro como eu, Lidiane, começar a soltar os cachorros contra vegetarianos e veganos, hold your horses (segura a onda aí!). Vamos a alguns fatos.

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Apesar de a matéria citar que a PETA (ONG mundial que se dedica aos direitos dos animais) apoia a substituição destes e outros idioms (falo mais disso adiante), o desaparecimento de alguns deles me parece uma tendência natural, já que a língua também acompanha nossas necessidades e evoluções sociais. Assim, à medida que o veganismo e o conhecimento em relação à crueldade aos animais crescem, nossos hábitos alimentares mudam. E, portanto, é natural que alguns idioms (assim como o atirei o pau no gato) passem a não fazer sentido ou a não encontrar mais espaço na sociedade atual. Só que isso não acontece de uma hora para outra. Muito menos por imposição de ninguém.

Lembra quando falei aqui sobre the third wheel segurar velaIdioms como estes soam sem sentido se traduzidos literalmente hoje porque foram cunhados há muitos anos. Neste caso, quando ainda haviam carroças e usava-se velas como principal forma de iluminação. As expressões idiomáticas nascem a partir de situações cotidianas e são transmitidas de geração pra geração, adquirindo um significado diferente ao longo dos anos e se perpetuando. Umas sobrevivem, outras caem em desuso. E outras talvez precisem mesmo ser problematizadas. Segurar vela ou to be the third wheel não ofende ninguém e nem incita a violência. Já outras podem fazer isso sem nem percerbermos, porque foram banalizadas.

Ok. Talvez esse não seja o caso de to bring home the bacon, mas pense em to kill two birds with one stone (matar dois pássaros com uma só pedra, o equivalente ao nosso matar dois coelhos com uma cajadada só), também citada na matéria. É quase um atirei o pau no gato, não é não?

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Bring home the bagels!

De acordo com a PETA, usar expressões como estas banaliza a crueldade com os animais e pode ser comparada a frases que incitam o racismo e a homofobia. A organização cita, assim, alternativas como to bring home the bagels (em substituição à to bring home the bacon) e to feed two birds with one scone ao invés de to kill two birds with one stone (veja a lista completa na matéria na CNN, também em inglês).

A imprensa, claro, caiu em cima. O jornal inglês The Guardian publicou uma dura crítica à organização sobre o assunto. Saiu até nos noticiários de TV. É que, além da questão animal, há também a questão histórica e de significado. As opções sugeridas pela PETA não dão conta de transmitir o verdadeiro significado que os idioms transmitem. To feed two birds with one scone não dá a ideia de resolver duas situações com apenas uma iniciativa como to kill two birds with a stone dá. Não há uma história verdadeira por trás de to feed a dead horse como há em to beat a dead horse – que provavelmente vem dos tempos em que cavalheiros chutavam seu cavalo caído para se certificar de que estavam mortos, o equivalente ao nosso chutar cachorro morto, ou seja, algo inútil.

In a nutshell

Por mais que a causa de desencorajar maus-tratos a animais seja compreensível e honrosa, há que se refletir se essa substituição não seria um tiro pela culatra, já que, sim, muita gente acha isso bobagem e trata o assunto com escárnio. Talvez a melhor opção seja refletir sobre os idioms e os tempos em que foram cunhados ao invés de substituí-los.

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A língua é um organismo vivo. Ela muda. Quer sejamos pró ou contra o que a PETA diz. Cabe então pensarmos até que ponto o uso de palavras e expressões influenciam nossa forma de pensar e agir e até que ponto o contrário influenciará na permanência ou no desaparecimento de alguns idioms.

P.S.: Falei demais, né? Mas se você leu até aqui e ficou curioso, prometo que falo desses e dos outros idioms citados nas matérias aqui mencionadas em outro post.

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